sábado, 21 de novembro de 2009

À francesa.


Por Ivan Pessoa.

Ela chupava tão bem. Ela/
Acariciava com qual autoridade,
Sua voz chupando-me dizia: invade,
Ou arromba a janela.

Como um cão que se antepõe à cadela,
Ou a chuva que se sobrepõe à cidade,
Buscava-lhe com tais palavras: Donzela,
Suplico que não grite. Vossa majestade.

Feito um sitiante, pondo-me revoltado
Invadia os cômodos de sua nobreza,
Com a força bárbara do meu cajado.

Seus lábios chupavam-me a natureza,
No que lhe escapava seu centro molhado,
Arreganhado. Ou à francesa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Soneto erótico ( O livro)

Por Ivan Pessoa

Com paciência igualmente, ela lia.
Sentada, abria a boca, pondo aberta,
A língua que lhe escorria,
A íntima oferta.

Enquanto a página parecia-lhe incerta,
Uma voz em mim mesmo incidia:
Interrompe a leitura e contraria,
Pondo-te à frente dela em alerta
.”

Alcançando sua mão pequena,
A voz em mim lhe entrosa:
- Deixai o livro, morena.

A língua que lhe fugia, curiosa,
Escapava-lhe à calcinha obscena,
Arregalada, prestes a encher-se de prosa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O labirinto dos bárbaros (Primeira parte)




Miserere nobis - tende piedade de nós


Ivan Pessoa*

A vida é o reino infindo de possibilidades, de modo que sem um norte, previamente sondado, nos perdemos na teia inescrutável das escolhas. Sem a orientação de alguém que já tenha se antecipado na teia desta vida, o homem padece de acirrada indecisão: qual sentido trilhar? Sábias são as palavras daqueles que se antecipam e voltam para contar suas experiências e àqueles que lhes cercam, resta a paciência do aprendiz. No antigo testamento da Bíblia judaico-cristã, a figura do pastor que orienta suas ovelhas, deixa entrever a imagem daquele que se antecipa às adversidades para melhor acolhê-las. No Evangelho segundo Lucas (15:4) a medida desta passagem nos dá em relevo o sentido desta atividade norteadora: “Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” Em contigüidade, os gregos já pensavam da mesma forma, porquanto a imagem da terra lhes fosse sinônima de fertilidade. A palavra lei advém do grego antigo, enquanto nomos, derivada que é de nemo, com o sentido aproximado de: pastorear. Encaminhar as ovelhas, em princípio desnorteadas, às mais abastadas pastagens, é a tarefa que cabe àquele que se antecipa, rumando a algum lugar. O sentido ocidental de legitimidade está originariamente vinculado àquela atividade ancestral do homem enquanto cultivador da terra, a partir da qual colhe seu próprio alimento e funda sua cidadela. É a terra e os ciclos de sua abastança que permite ao homem em pastoreio, que ele possa encaminhar suas ovelhas em meio às intempéries e vicissitudes, e fazê-lo é franqueá-las a possibilidade de um rumo a seguir,de uma acolhida. Pastorear a terra para que ovelhas possam habitá-la, é a atividade que cabe igualmente ao educador, aquele anfitrião do porvir. As demonstrações cada vez mais ostensivas de violência, desrespeito à vida, esconde sub-repticiamente as incidências de uma sociedade perdida nos limites de um labirinto bárbaro por si mesmo e ademais, carente de legalidade.
Recentemente um poema de juventude do irlandês W.B.Yeats, me chamou atenção, não porque se tratava de um expoente do chamado cânone ocidental, antes disso, o poema me pareceu deveras atual. No verso curto, Yeats põe o mundo real à mercê do mundo fantástico das fadas, que cientes do progressivo esfacelamento da humanidade, nos sugerem fuga: “Vem embora, ó filho do Homem/ Para as águas, para os ermos/ Com uma fada, mão na mão, / Pois há no mundo mais pranto do que possas entender.”.Contrariando a fuga das fadas de Yeats, que nos vem em auxílio, cada vez mais se me parece insustentável a condição do homem na Terra, nossa monótona e imerecida pátria, como escrevera Laforgue. Estamos encurralados? Talvez. A onda de banalidade ocasionada pela fragilidade de nossas instituições, a perda de sentido da vida moderna, de fato, faz com que as coisas cumulem tantos outros agravantes. Tudo me faz crer que estejamos grassando os descaminhos de Teseu através do labirinto, entretanto, Ariadne não nos espera.Enquanto presencia-se o desmoronamento da atividade política, arrimada nos ombros de marfim de nossa pretensa democracia, assomam-se os desencontros atrapalhados do cidadão comum pelos veios deste labiríntico país. Quem poderá nos defender? Não pensemos no épico heroísmo dos salvadores da pátria, vigente no gestual temporão do bolivarismo chavista, nem no passe de mágica taumatúrgico dos teóricos do Mont Pelerin, sobretudo, a estadofobia neoliberal. A luz no fim de tudo esconde-se como uma promessa. Ou o país acolhe a necessidade de conscientizar seus filhos, norteando-lhes não só burocraticamente, mas antes juridicamente, à maneira da compreensão de L. T. Hobhouse e Miguel Reali, ou nada. Contra a luz, investe as trevas, e tudo é sombra.O crítico Janer Cristaldo, tradutor da desconhecida escritora sueca Karin Boye, igualmente distanciada pelo idioma, recentemente foi alvo da revolta de uma amiga de um site de relacionamento que se queixava inflamada, da arrogância fleumática dos suecos. Como era de se esperar, Janer Cristaldo não se posicionou, provavelmente por saber da peculiaridade do povo sueco, de sua grandeza. Pensemos com ele, percebendo a resposta dos suecos ao fenômeno gradual da barbarização humana, quem sabe, uma luz através do labirinto.Com uma economia que cresce 3% ao ano, notabilizando-se como um dos maiores pibs da Europa, a Suécia responde ao colapso da barbárie vigente com políticas sociais que contemplam, sobretudo, a formação do cidadão sueco. Se houver saída neste labirinto, se nos espreita uma fada acolhedora, a metáfora codifica uma única palavra: formação (bildung), naquilo que há de mais totalizador, unificando o homem com seus semelhantes. Faz-se necessário encaminhar as ovelhas destas paragens, tão avulsas quanto desnorteadas, e para tanto, apenas a educação é capaz de alentar esperança.Diferentemente dos demais animais, que já nascem com o corpo dotado de relativo desembaraço, que lhes permite, por exemplo, viver ao acaso da natureza, o homem padece daquilo que o biólogo A.Portmann chama de: “nascimento fisiologicamente precoce.” O homem é um ente que precisa do Outro, sob pena de desaparecer. Na minha compreensão, o afunilamento das veredas desse labirinto passa pelo desapego do homem para com o próximo, de modo que, o Outro, aqui incluindo, as minorias, os diferentes, perdem sua específica peculiaridade. Tornando-se o lobo de si mesmo, o homem percorre sua sinuosa trajetória através da vida, dilacerando-se, desdenhoso de tudo aquilo que lhe antecedera, aquilo que desde os gregos se chama: cultura. As ovelhas troçam do pastor como se já lhes soubesse o caminho. O reverso da cultura, da civilização, destarte, é a barbárie, aquilo que no decorrer do texto, concebi enquanto labirinto, de onde não se pode escapar. Será?Quisera eu, não só transpor, mas também fundir minha lúcida esperança com o silêncio de Janer Cristaldo, em resposta àqueles que crêem, cambiantes, que a formação de um povo não tornar-se-ia sua condição de possibilidade. A única resposta ao recrudescimento dos meandros deste caos humano assenta-se no fomento às políticas públicas que favoreçam a educação e por extensão a cidadania, aquilo que integraliza o indivíduo humano com sua humanidade, aliás, com seus semelhantes. Não há, pois, como descerrar este labirinto, sem as mãos do próximo (leia-se: educadores) mãos que fendem as fronteiras do amanhã, à cata de luz e abrigo. Só assim para que possamos superar nossas limitações, reescrevendo assim os versos do vate: “Vem embora ó filho do Homem/ Para as águas, para os ermos/ Com uma fada, mão na mão/ Pois há no mundo mais esperança do que possas entender.”.E por que não?

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O bode de nossa tragédia.


Ivan Pessoa*

Como as coisas carecem de precisão, começo antecipando o final iminente, que vem a reboque de Pascal: “A última cena é sempre trágica.” A palavra tragédia provém do grego, adveniente de duas outras palavras: tragos (bode) e ode (cantar), o que já nos dá a entender o sentido literal de: o canto do bode. Conta-se que era em decorrência da presença caprina dos sátiros enquanto estes se avizinhavam etilicamente de Dionísio, deus do vinho. Pode-se depreender do canto do bode dionisíaco, o som esquálido de um animal que está prestes a ser abatido pela fúria implacável dos deuses, de tal sorte que daí pode-se imaginar a dimensão de uma expiação providencial. Enquanto Dionísio se acercava do canto derradeiro dos bodes em uma Grécia habitada por divindades fatalistas, nas paragens desérticas do Templo de Jerusalém, mais precisamente durante o Yom Kippur, ou dia do perdão, os hebreus já tinham o hábito de apresentar dois bodes no Altar de Deus. Um seria imolado, enquanto o outro seria levado aos desertos para levar consigo os pecados dos populares. Segundo Levíticos (16; 15): “Depois degolará o bode, da expiação, que será pelo povo, e trará o seu sangue para dentro do véu; e fará com o seu sangue como fez com o a sangue do novilho, e o espargirá sobre o propiciatório, e perante a face do propiciatório.” Aquele que expia como o bode prestes a ser imolado, é a figura que encarna as mazelas de todos os demais, suas vicissitudes, e num passe ritualístico de reparação, compensa consigo os equívocos dos demais. Mais precisamente no gólgota, Jesus Cristo teria expiado a culpa primordial de Adão, de sorte que desde então, a par de seu calvário, toda a humanidade poderia igualmente redimir-se.
Flávio Josefo, historiador judaico-romano, em seu antológico: Guerra dos judeus, mais precisamente nos primórdios da acirrada consolidação da religião judaico-cristã nos limites do império romano, desde já nos asseveraria sobre a delicada e polêmica questão acerca da vinda do Messias, enquanto o redentor derradeiro ou não da história. A bem da verdade, segundo os judeus este Messias ainda não teria vindo, o que historicamente ocasionaria um sem número de pretensos redentores. Já no primeiro século da era cristã, Flávio Josefo enumeraria um número considerável de pretensos Messias, de modo que todos endossariam o bíblico vaticínio do Evangelho segundo Mateus (24.5): “Por que vão aparecer falsos profetas e falsos mestres, que farão grandes prodígios e sinais, a ponto de enganar até os eleitos, se fosse possível.” Josefo, que se refere ao primeiro de muitos, como charlatão, dá nome aos bois e o cognomina: Teudas que teria conseguido reunir uma súcia de 400 pessoas. Não apenas Josefo lhe confirma, mas a Bíblia também o faz como nos faz crer os Atos dos Apóstolos (5;36): “Porque, há algum tempo, levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; ao qual se ajuntaram uns quatrocentos homens; mas ele foi morto, e todos quantos lhe obedeciam foram dispersos e reduzidos a nada.” Passados alguns anos, novamente a história em aberto do Messias expiável, novamente se faria presente, dessa vez com o rabino Simão Bar Yochai. Conta-se que o tal rabino liderando uma resistência judaica à possessão de Roma, fomentaria uma revolta que custaria aos cristãos não apenas a alcunha de gentios (não judeus), mas conseqüentemente uma posição anti-judaica. O ano de 135 d.C com a tal revolta incitada por Bar Yochai e vencida pelo imperador Adriano, serviu à cristandade, enquanto a separação do joio, do trigo, de modo que agravaria desde então a posição de cristãos e judeus, que seguiriam rumos e perspectivas distintas. A possibilidade franqueada ao imaginário judaico da vinda em aberto do Messias desenrolar-se-ia como uma promessa iminente, com efeito, sua aparição se faria sentida a qualquer momento. As condições objetivas é que lhe confirmariam (qualquer semelhança com o marxismo não é mera coincidência). De acordo com as previsões talmúdicas, aquele Messias redentor, o tal bode expiatório da humanidade, viria a Terra no ano de 440 d.C. Coincidências à parte, o certo é que naquele ano o império romano já começava a demonstrar sinais de esfacelamento, em decorrência das recorrentes invasões de povos vizinhos, o que apressaria eventualmente as alegações de um pretenso líder em Creta; então posse romana, ironicamente de nome: Moisés. Convencidos de que ele seria o grande libertador do povo judeu, muitos de seus seguidores abandonaram as benesses de uma vida agrilhoada e puseram-se a atravessar o pretenso mar que lhes levariam de volta à terra prometida. Em face da mais deslavada charlatanice, muitos foram aqueles que morreram afogados, enquanto ele sumiria misteriosamente deixando os rastros através da história.
Imaginando que a era messiânica começaria no ano de 1568, o cabalista Isaac Luria arrogou para si mesmo a posse da alma iluminada do Messias, diferindo dos demais em função de uma inusitada releitura do fenômeno, afinal o mesmo acreditava que por transmigração das almas e por definitivo melhoramento, sua vida teria sido eleita portadora daquela dádiva, qual seja: acolher a presença do redentor. Enquanto Luria bastava-se em seus ensinamentos quão heterodoxos, um dia, um certo Nathan de Gaza em presença de Sabbatai Sevi lhe incutiu a idéia de que ele era derradeiramente o Messias, desde então o turco se arrogaria tal epíteto vindo a peregrinar no mundo antigo. Um dia no ano de 1665 em meio a uma multidão, Sabbatai crente que lhe teria arrebatado, declara-se em alto e bom som: “Eu sou o Messias.” Passados alguns meses, movido pelos impulsos cegos de tal sandice, o auto-proclamado Messias dirigir-se-ia à Constantinopla objetivando convertes os infiéis mulçumanos, mas em terras hostis seria capturado e posto na condição de negar sua fé em nome do islamismo. E assim o fez, de tal feita que seu gesto seria compreendido pelos seus seguidores como o atestado direto de sua messiânica providência, dotada de perdão e piedade.
Ainda que não autodenominado: Messias, ainda assim o rabino ortodoxo Menachem Mendel sofreria as agruras de tal concessão judaica, o que lhe ocasionaria a disseminação daquela notoriedade concedida apenas ao redentor. Mas qual? São tantos. No plano imanente, secular e decadente da política em quantos bandos e em quantas ordens eles vêem? Montado em nome de quais cavalos, em defesa de quais brasões? A objetivadade referida à constatação do Messias entre nós, falta tanto à teologia escatológica do judaismo, quanto à política amesquinhada de nossos contemporâneos, o que apressa aquela megalomania: “Eu salvarei a pátria.” Eis a tragédia, com seus sub-reptícios bodes expiatórios.
De um plano a outro, mais especificamente em São Luís, o canto do bode ecoa ab urbe condita, desde a fundação da cidade, mas de uns anos para cá apenas um único sátiro leva consigo a autoria de tal estribilho. A cornucópia de nossa miséria apenas engorda a fome do bode expiatório de nossa trágica política local, famigerada em apresentar diuturnamente incansáveis Messias dispostos ao Gólgota. O certo é que a tragédia ludovicense fede por si mesma, sobretudo porque bodes acotovelados por Messias indecisos, apressam um ranço odorento de hipocrisia. Jules Michelet em sua obra: A feiticeira, nos diz que quando do triunfo do cristianismo; aquela religião que assegura taxativamente a vinda do único e indestituível Messias, uma voz misteriosa corria às marges do mar Egeu gritando: “ O grande Pã morreu!” Para a história, aquela voz que corre o mar Egeu quer decerto assegurar que no plano da religião um único Deus e seu filho unigênito, vale bem mais que uma celeuma de deuses. O cordeiro vence o bode definitivamente. E em São Luís, onde o tempo carece de precisão, quando virá o verdadeiro redentor bradar com seu canto balido às margens do Rio Anil “ O grande sátiro morreu ?” Eis a primeira cena da próxima tragédia.

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Estátua!




"Não construas estátuas aos vossos heróis, é melhor erguer estátuas às vossas vítimas." (Jean de La Bruyère)

Ivan Pessoa*


Nada é mais relativo ao poder do que a necessidade de conservá-lo, nem que seja arbitrariamente à força. Tudo o que for política é eminentemente esta necessidade, aquela sanha de poder em demasia. Como a vida é mesmo a implacável fuga dos segundos, é natural àqueles que governam, o usufruto deliberado do populismo que afixa imagens, cartazes e nomes em obras públicas. Como explicar, por exemplo, as sucessivas oito vitórias do cego e nada carismático Joaquin Balaguer à frente da presidência da República Dominicana a não ser por meio da deslavada utilização de um populismo que não mede esforços em se fazer onipresente? A conservação do poder implica na fixação da imagem de modo que ressalto Walter Benjamin: “Aquilo de que se sabe que logo não mais se terá diante de si, torna-se imagem.” A política, aquela eterna busca por poder ad infinitum, ciente de que todas as suas relações são notadamente instáveis, só conserva-se quando se torna imagem e para tanto, nada melhor do que a ancestral obsessão humana de petrificar-se em estátua. Toda e qualquer estátua encerra um apelo político, aliás, materializa-lhe. Logo após a morte precoce de seu protegido, o imperador Adriano teria ordenado a deificação de Antínoo, com a anexação de sua imagem em inúmeras estátuas em todo o império romano. A estátua de Antínoo por todo império é própria obsessão humana pela eternidade, aquele afã de não sucumbir às vacilações da vida. À proporção que Adriano exige a inscrição petrificada de Antínoo por toda a Roma, seu gesto quer fazer crer que enquanto imperador tudo lhe é permitido, inclusive dar-se às sandices. Pelo poder, por sua conservação e pela eternidade, toda imagem se justifica, afinal como dissera Virginia Woolf: “A estátua é sempre maior que o original.” Se em vida Napoleão Bonaparte resumia-se a um metro e sessenta e oito de altura, enquanto estátua, precisamente na Praça São Marcos sua grandeza superestima-se em dois metros e cinco centímetros de escultura. Se em vida Stálin era a personificação da sanguinolência, enquanto estátua sua mão insinuar-se-ia como a redentora. Kim Jong II e Saddam Hussein da mesma forma.
Não é difícil depreender que o apego ao poder e sua perene necessidade de conservação, implica por vezes na afixação da imagem, tão bem enfeixada na incrustação do estatuário. Diógenes, o cínico que tinha o hábito de pedir esmola às cegas estátuas de Atenas, alegando que estava educando-se para a recusa, decerto sabia que o poder seria tão empertigado quanto teatral. Com dessemelhante teatralidade, na Cidade do México, mais precisamente no Paseo de La Reforma, encontra-se uma estátua eqüestre de Carlos III, Rei da Espanha com os seguintes dizeres: “Este monumento está aqui apenas pelo seu valor cultural.” Cinicamente apenas Carlos III teria sido responsabilizado por um contingente incontável de mexicanos mortos, ou seja, mais do que todas as revoluções dos nativos daquela terra. Quantos mortos encerram-se por detrás da presença de bronze das estátuas? Demoro-me a pensar e descubro que a petrificação de uma cultura com seu respectivo estatuário, é proporcional à mácula de sangue que lhe escapa história afora, não é à toa, por exemplo, que o conjunto de estátuas em Roma seja o maior do mundo antigo, afinal aquele império se notabilizaria pelo seu excesso de violência. Roma teria um estatuário tão notável que o imperador Teodósio se encontraria em uma situação incomum no ano de 387 d.C com o chamado: levante das estátuas, episódio tão bem descrito por João Crisóstomo, então presbítero da Antióquia. Em tal levante, os populares se indispuseram com a quantidade de imagens pagãs do império, tão viris quanto pretensiosas. O certo é que o desejo humano por perpetuar-se, aquele desejo de eternidade lhe faz erguer a civilização, a cultura, com suas estátuas e esculturas e para tanto, para que se conserve, o poder só o faz se se confronta violentamente com seus inimigos ou com o tempo. Toda forma de poder, aquele anseio de eternidade é igualmente violento e bárbaro e no bojo desta barbárie inscreve-se em suas imagens, daí porque relembro Walter Benjamin: “Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie.” A bem da verdade as estátuas de Alexandre, César, Napoleão, Carlos III e Stálin e as que virão, encerram a mesmíssima dimensão, qual seja: todas são expressões tardias daquela necessidade humana de poder desmedido que se imagina para além do tempo que enquanto tal só se efetiva porque míngua o tempo dos demais. O sacrifício que se paga pela usura de alguns, tem o peso da pobreza, o suspiro da miséria, da inanição que escandaliza. André Gide estava certo, afinal: “Não existe acrópole que a onda da barbárie não possa atingir, arca que não acabe por afundar: agarramo-nos a destroços.” A lembrança dos grandes épicos, o cenho dos grandes homens nas praças públicas é a medida conseqüente de um banho de sangue, até porque como endossava Átila, rei dos hunos: “A erva não volta a crescer onde pisa meu cavalo.” Reescrevo-lhe: “A erva não volta a crescer onde toca um oportunista.” Quando penso em poder, recordo-me inevitavelmente da violência, aquele gesto que para se fazer vencedor, não mede esforços em sua empresa. Todo imaginário ocidental, no tocante à política, se pauta nesta dimensão, porquanto valha aquele pensamento de Karl Von Clausewitz: “A guerra nada mais é do que a continuação da política por outros meios.” E de fato eles estão em pé de guerra, ainda que os discursos façam crer o contrário. A bem da verdade, só vence nesta beligerante atividade chamada: política, aqueles que se puserem a postos como os olhos de bronze das estátua eqüestres de D.José I e Duque de Caxias.
Como naquela antológica estátua sonhada por Nabucodonosor em relato a Daniel que tem os pés de barro, portanto, insustentáveis, todo estatuário político brasileiro é qual a insustentabilidade daquele colosso, híbrido por excelência. Não é de admirar, portanto, que nos próximos anos algumas tontas estátuas se façam presentes nas praças públicas de nosso país, destarte, a sanha de alguns parlamentares dobrará os ardis do tempo. Como naquela prazerosa brincadeira de criança que ao manifestar a palavra: estátua, os participantes se esforçam em fazê-lo, ainda que custem alguns gracejos, façamo-nos crianças ao nos perguntar; quem provavelmente terá uma estátua de proporções épicas no centro de São Luís nos anos vindouros? Quem se arrisca a acertar?

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A ponta do verbo na língua da mulher.



“Vejo a Natureza como uma bela mulher, esplendidamente vestida, que anda sem se preocupar com as formigas em que pisa. Sou uma dessas formigas. Vou ser esmagado.”
(Hippolyte Taine)


Para Leninha.


Ivan Pessoa*

A poesia é carne. A filosofia é espírito. Enquanto a poesia nos faz crer a presença da mulher, a filosofia é a renúncia a tudo o que pulsa. Uma é língua. A outra, verbo. A poesia é a fêmea deflorando. A filosofia é o éfebo desfibrando-se homem. Ainda que se façam discordantes, pois que com interesses distintos, mais vale o fragmento de Heráclito de Éfeso que o desconhecimento, decerto porque: “ O diferente condiz consigo mesmo.” Que a diferença nos faça entender esta contenda.
Poeticamente toda mulher é um excesso de fogo que abrasa. Quanto mais poética for a mulher, maior o rastro de sua luminosidade. A mulher que teria ensejado o conflito entre gregos e troianos, seria tão poética que seu arauto, o cego Homero assim a descreve: “Quando Helena entrou, diante da visão de sua beleza, os velhos se levantaram.” A mulher, este fogo insinuando-se, é uma presença que desassossega, de modo que historicamente sempre esteve associada ao desmedido, àquilo que foge o controle. Em verdade, toda mulher é uma ameaça, porquanto a sedução arrefeça as exigências da razão, sobrepondo assim o encanto à prudência. Ao comentar o décimo segundo canto da Odisséia, Franz Kafka dirá que ainda que envaidecido de ter dobrado a sedução das sereias, tapando seus próprios ouvidos com cera, ainda assim Ulisses teria sido encantado com a presença imemorial daquelas míticas mulheres, com efeito, o silêncio daquelas beldades, antecipando-se às intervenções racionais do comedimento, desapercebidamente lhe acometeria.
O silêncio de uma mulher antecipa-se ao rigor lógico do intelecto, inutilizando, portanto, todo arranjo discursivo do cabedal de filósofos que nos pomos a ler. A mulher figura na tradição filosófica como uma ameaça à consecução dos projetos racionais, da fleuma metafísica, da clausura interior, significando, pois, aquela presença que implode o edifício harmônico da razoabilidade. Sócrates, que constantemente se queixava da postura ensandecida de Xantipa, certa vez dissera: “De qualquer maneira, case-se; se conseguir uma boa esposa você será feliz; se arranjar uma esposa ruim, você se tornará um filósofo.” A indisposição da racionalidade filosófica em face do apelo poético da mulher, abriria no imaginário ocidental a sessão reprovável da misoginia, aquela necessidade de diminuir a presença feminina a quase nada. Arthur Schopenhauer, misógino confesso, assim resumiria: “A mulher é um animal de cabelos compridos e de idéias curtas.” Curioso que Schopenhauer trocaria a presença encantadora das mulheres pela irracionalidade de Atma, seu cão companheiro, me fazendo crer irrestritamente na máxima de um moralista anacoreta: "O cão foi dado ao homem a fim de atenuar as conseqüências da criação da mulher.”
A filosofia, bem como o imaginário ocidental, sempre preteriu a mulher em nome da razão e sua rigorosa estrutura. Concebida a despeito da vigilância do pensamento, o arquétipo feminino sempre fora compreendido enquanto as insinuações letárgicas daquilo que embotaria a consciência, à maneira de um sono profundo. Tornar-se vigilante é arrazoar a realidade, deixar-se encantar é sonhar. O homem pensa e a mulher delira. O filósofo conceitua, mensurando inteligentemente a natureza, a mulher desvia-lhe os olhos. Dobrar os apelos do disfarce, do simulacro, das aparências e da sensualidade teria sido o afã mais corrente da tradição filosófica ocidental, o que implicaria na clivagem entre verdade e falsidade, eternidade e finitude. Ciente de todo este apanhado, o filósofo Nietzsche no prólogo da obra Para além de bem e mal, retrucaria: “A verdade é mulher.” Fácil depreender a partir daí a idéia de que a verdade bem como a eternidade; conceitos tresloucadamente buscados pela tradição filosófica, apenas seduziriam pavoneantes, sem jamais serem relevados efetivamente. A mulher, sedutora por excelência, é a verdade, o inteligível que se encarnando nos limites do corpo, fustiga, mas nunca se dá em plenitude, o que explica, por exemplo, a impossibilidade dos filósofos entrarem em consenso, afinal como racionalizar o que não pode ser explicado por meio de conceitos? Como a racionalidade pode açambarcar os mistérios, se há muito relegara a segundo plano o formigamento da sensibilidade? A verdade que é mulher, não pode ser conceituada, o que explica os desencontros da filosofia em seu afã. Resta ao discurso conceitual da filosofia pôr-se à cata de algo que seduz, adiando-se ad infinitum. Com destemor a poesia perde-se no corpo da mulher, despudorando-lhe os insinuantes esgares. O filósofo, incapaz de consumar-se em ato, deixa-se seduzir desafortunadamente, enquanto o poeta perde-se nos limites da carne para encontrar-se consigo mesmo. O poeta Luís Augusto Cassas que episodicamente teria conversado com Carlos Drummond de Andrade, assim teria escutado de sua voz aceira: “A eternidade é uma mulher que a gente não sabe o gosto.” Diferentemente do filósofo; que pretende arrazoar o eterno que não pode ser visto, nem a verdade que possa ser dita, o poeta sabe; como os íncubos, aqueles demônios que fustigavam as mulheres durante o sono da Idade Média, que nem tudo pode ser compreendido racionalmente, restando por seu turno a oferta lasciva da sensibilidade. A poesia desdobra-se nas coxas do indizível, nos seios do silêncio, enquanto a filosofia pondera-lhe a ausência.
Forjada no bojo do imaginário ocidental, esta concepção, radicada em uma dimensão filosófica, sempre associaria a mulher, aquele fogo insinuando-se, a tudo o que afastaria a prudência masculina da retidão. A paixão rebaixa, desvia. A racionalidade sobrepondo-se absoluta, liberta. Este dístico se faria tão presente nas compreensões de gêneros do Ocidente, que a partir de então se popularizaria a disseminação do mito de Lilith como o elemento característico do ser feminino. Lilith, como nos faz crer a leitura heterodoxa da cabala judaica, é tanto a primeira esposa de Adão, quanto a serpente que lhe indisporia o paraíso. Rebelando-se com Deus após ter descoberto sua condição coadjuvante no processo de criação e após ter se recusado a ficar debaixo de Adão na relação sexual, vagaria na Terra assemelhando-se a um demônio que aterrorizaria crianças e homens desaconselhados. Durante a Idade Média, afora os íncubos, os súcubos, e Lilith, a Igreja Católica disseminaria a idéia de que tudo o que fosse eminentemente volitivo, e por extensão feminino, seria igualmente demoníaco. Publicado em 1487, o Malleus Maleficarum ou o Martelo das Bruxas, à maneira de um manual, conteria passo a passo os elementos necessários para se reconhecer e se proteger do poder demoníaco das bruxas. Mas quem seriam as bruxas? Seriam mulheres, seres mais suscetíveis aos apelos rastejantes do erotismo, afinal como alegaria o livro: “a razão natural está em que a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidencia pelas suas muitas abominações carnais.” Não por acaso, em sua obra: Confissões, Santo Agostinho demonstraria remorso a par de seus inúmeros sonhos eróticos, poluções e pesadelos, associados que eram àquele impulso não redimido da alma humana, aquela reserva de animalidade tão infensa ao pudor inteligível da filosofia.
Enquanto a filosofia é a consciência refletindo a si mesma, a poesia é a nudez da mulher desviando o olhar. A primeira se desdobra na phronesis de Aristóteles, na prudentia de Tomás de Aquino e nos limites da reta razão. A segunda é o exercício do páthos, do êxtase, dos impulsos que nos acometem o entendimento, aquilo que nos faz calar. Diferenças à parte, o certo é que Heráclito estava certo, com efeito: “É terrível lutar contra os desejos do coração. Aquilo que ele deseja, há de consegui-lo, ainda que lhe custe à alma.” Em outras palavras é como se disséssemos: os impulsos animais sempre troçam das exigências lógicas da razão. A fêmea sempre devora o éfebo. A língua sempre dobra o verbo.

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ir a teu encontro.


Ivan Pessoa*


"Esse Silêncio Todo Me Recorda,

A Tua Boca Insinuando Quando Quer

Nada Querer.

Se Quer,Insinuas.

Quando A Tua Boca Vier,

Me Traz a Corda,

Para Atar Minha Língua Na Tua Borda de Lua.

Já Que Tens Todas As Luas,

Na Borda do Corpo,Vem Me Dê a Língua,

Que Mesmo que Morra À Míngua,

Saciado Vivi As Horas Tuas,

Como Se Pudesse as Sete Vidas.

Ferido Tenho O Corpo, As Sete Chagas,

Teu Corpo É Uma Lâmina e fendidas,

São As Frestas de Meus Olhos.

Sou Antes e Depois de Ti,Às Sete,

Tens As Mãos,A Carícia,

Fio de um Canivete,

Me Entrego À Proporção Que Feres e Afagas."


( * 22/08/07 - 21h:47m )

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Os livros que Deus não lê.



"Os livros são os túmulos dos que não podem morrer."


George Crabbe


Ivan Pessoa*

Deus está lendo as nossas idiossincráticas narrativas uma hora dessas. Quando Ele completa sua implacável leitura, a vida finda. Preenchendo com vírgula a incansável leitura, sabe Deus se não teremos uma trégua? Espacemos com vírgula nossas vidas, para que Deus, apiedado, postergue sua leitura. Enquanto Ele não nos alcança o derradeiro ponto final neste cartapácio chamado: vida, e cientes de que a leitura é uma atividade afeita à ordem superior de Deus e sua corte, esbocemos um capítulo sobre esta oferta divina tão cara à potestade do universo. A dádiva de Deus ao nos ofertar a leitura, é sem mais a conseqüência dos atributos da inteligência, a propósito a própria palavra: inteligência, do latim intus legere, ou seja, ler interiormente, já denota a partilha de algo hierarquicamente superior. Lendo-se interiormente, o homem interpreta a natureza, empreendendo assim a cultura. Como pensara Campanella: “O mundo é o livro em que a inteligência eterna escreve os próprios conceitos.
Deus que nos lê silenciosamente, inscreve seus caracteres na natureza, e prenhe de inteligência o ser humano busca-lhe a compreensão. Quando o homem lê minuciosamente a natureza, porquanto, leia a si mesmo e extravasando o seu próprio silêncio, o que daí se desdobra é a chamada transcendência, que literalmente significa: subir além de. O que nos interessa é perceber o sentido da leitura como esta subida além da mera condição mortal e efêmera relacionada à existência humana, tão frágil quanto uma folha de papel, entretanto tão benevolente quanto os caracteres de Deus em nossa inteligência. A fragilidade do homem que é compensada pela inscrição de sua história nos códices da vida, é heroicamente reavaliada em um tempo conseqüente. Os grandes livros que o digam. O homem é frágil, mas ao ler-se a si mesmo, lendo à sua volta, a transcendência referida lhe põe em proximidade com a morada astral de Deus. Se Deus nos lê compassadamente, pontuando comicamente nossa ignorância, é fácil depreender que nossa humanidade só é determinada em função de uma paulatina leitura de si mesma.
O verbo ler que advém do latim: legere, antecipa um sentido muito próximo de colheita, recolhimento, cultura, o que já de per si nos orienta a uma dimensão que integra homens, deuses e a natureza. Lex, religere, respectivamente: lei e religião radicam seu sentido naquela acepção do verbo ler enquanto reabilitador do homem consigo mesmo e com a realidade. Não haveria homem, este caractere de Deus, sem o recolhimento em si mesmo perante a natureza. A interioridade cria a exterioridade. O silêncio forja a cultura. Ora, se entregue à própria sorte o homem é senão uma possibilidade de vir a ser, uma potência como dissera Aristóteles, então o que efetivaria o ser humano integrando-lhe consigo mesmo e com seus semelhantes? Laconicamente o que efetivaria o homem em sua completude seria a leitura, aquilo que em um só tempo permitir-lhe-ia colher os cacos dispersos de uma história que lhe antecedera, mas que seria a sua razão de ser. Ler, como nos faz crer o sentido etimológico, está em consonância com uma dimensão totalizadora que reintegraria a terra e o homem, o passado e o futuro, franqueando ao tempo que virá uma vinculação primordial, um fundamento. A possibilidade humana só se efetiva no instante que se vincula à ancestralidade daqueles que lhe antecederam, daí porque corroboro com o pintor francês Eugène Fromentin: “Todo homem traz dentro de si um ou vários mortos.” Os mortos de Tróia, forjaram o povo helênico, à maneira dos mortos de Jerusalém que sucessivamente revivificam o imaginário judaico-cristão. A Ilíada forja a Grécia e O Evangelho, como quisera Paul Claudel, documento que respira, a espiritualidade cristã. Desconhecê-los é peregrinar por um mundo aparentemente sem fundamento, por conseguinte alheio às vicissitudes históricas. Ambas as leituras criam o Ocidente e desviá-las é negar a condição primeira de humanidade que é decerto a vinculação elementar com um passado fundamental.
Se o culto moderno é a fixação desmedida ao hoje ad eternum, sua conseqüência é igualmente fixar seus envolvidos na crença envaidecida de um tempo auto-suficiente, que ao distanciar-se do passado, desdobra gerações e mais gerações de homens e mulheres sem referenciais. Como se pode perceber, as conseqüências são catastróficas, afinal a sanha pelo presente, distancia os homens de um passado fundador. O homem moderno ao voltar-se sobre seu próprio umbigo histórico, não se efetiva enquanto potência, nulificando-se.
Conta-se que horas antes de perceber que morreria, o poeta Virgílio solicitou que queimassem sua obra, em que lhe replicaram de pronto: “É tua a Eneida ou de todos nós?” Como fundamento de uma história ancestral, grandes obras precisam ser lidas, sob pena de impossibilitarem o surgimento de um porvir. A ignorância em face do tempo, a incapacidade de situar-se espacialmente, sempre me pareceu um dos traços mais correntes da barbárie interior. A exaltação ao hoje, imponente e ensimesmada, cria uma geração de pessoas interiormente bárbaras, com seus gestos e laivos superficiais. Os filhos desta geração são metaforicamente como o Papa Júlio II, que em um caso específico assim teria se escusado diante Michelangelo enquanto este lhe talhava sua estátua: “Ponha na minha mão uma espada; não saberia o que fazer de um livro.” Relegados a segundo plano, livros bem como suas fascinantes narrativas são momentaneamente menosprezados em nome das aparências. A espada de Júlio II, o viver de aparências denota em poucas palavras a instauração de uma ignorância que cresce paulatinamente. Outrora os bárbaros, hoje os ignorantes. Entre ambos a mesma característica: o excessivo desconhecimento do passado, a falta de referenciais.
Deus, maior leitor do universo, permanece envolvido com os signos de nosso tempo, afinal como dissera Aby Warburg: “Deus encontra-se nas entrelinhas.” Mas ri de seus personagens, incapazes que são de lerem a si mesmos. Enquanto Deus encontra-se nos inauditos destes tempos sombrios, os homens hodiernos, como se forjassem parênteses imensos, abrigam-se em suas vaidades, distanciando-se do princípio do verbo. As palavras perdem o sentido, levando consigo o ato de ler. Como conseqüência o passado e a história perdem a especificidade, qual seja: reintegrar os homens que virão com os fundamentos basilares de suas respectivas culturas.
Outrora, Deus nos lia avidamente, confuso por vezes. Hoje, tolera-nos a ignorância. O que pensar daquilo que dissera Schopenhauer: “O fato de você ter lido Helvetius será levado na devida conta por Deus que, de vez em quando, o lê também.” (?) E quanto a Castro Alves: “ Quando ante Deus vos mostrardes, tereis um livro nas mãos...” (?) Deus nos lê uma hora dessas, aliás nos tolera. Se os parágrafos da Ilíada, as pausas da Babilônia, as vírgulas da Atlântida, se nada disso foram suficientes para conter a avidez inteligível de Deus e sua necessidade de forjar narrativas para serem lidas posteriormente, o que pensar de tempos tão esquálidos quanto estes, em que pontos finais são tão menoscabados quanto o jorro gráfico de palavras no papel em branco? Que Deus leia a contragosto nossa ínfima história, facultando-nos um final trágico, porém divino, antes que nos apressemos em queimar as reticências de seu nome.

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A civilização caninizada.


“Portanto meus irmãos, temos uma obrigação, que é a de não viver de acordo com a nossa natureza humana”.


(Romanos, 8.12).


Ivan Pessoa*

Lançado à própria sorte, todo homem é um animal. Desde que Deus falou através da boca de Jó, desde então Ele selou o destino humano: “Porque até com as pedras do campo terás a tua aliança; e os animais do campo estarão contigo.” (Jó 5:23) Os homens vivem entre os animais, aliançando uma comunhão de há séculos. Entre os dois, quem é mais bestial? Quem teria civilizado quem? Façamos um breviário desta aculturação.
Quando a geografia medieval ainda engatinhava, imaginava-se que os supostos homens, para além da topografia cristã européia, viviam de cabeça para baixo, incapazes de ficarem em pé, além é claro de disporem de um rosto ligeiramente canino. Para além dos limites da Europa cristã, os homens eram cinocéfalos, eram bárbaros com distintas fuças. Voltaire ao replicar os ensinamentos fisiológicos de Descartes e seu mecanicismo, e após ter praticado vivisecção em um cão, assim teria ironizado: “Tu descobres nele todos os mesmos órgãos do sentimento que existem em ti. Responda-me, maquinista, a natureza articulou todos os órgãos do sentimento nesse animal, para que ele não sinta? Tem ele nervos para ser impassível?” Os cães como os seres humanos são mamíferos sensíveis. Ponto.
Quando o destemido Ulisses retorna à Ítaca depois de vinte anos, o único que lhe reconhece de pronto, é o seu cão fidelíssimo, Argos. Os cães dispõem de uma fidelidade tal, de fazer inveja a qualquer outro bicho. Dimensione a fidelidade dos gatos e projete sobre os cães. O pintor francês Toussaint Charlet, com um pouco mais de destemor assim teria dito: “O que há de melhor no homem é o cão.” Sendo o melhor que há em cada um de nós, os cães escondem-se atrás de certas convenções, certas máscaras, impedindo assim que vejamo-nos sem maquiagem. Se se pensar, por exemplo, que o adjetivo mais exitoso dos dias atuais, radica sua etimologia em função dos cães de nossa civilidade, certamente veremos o quão probo é aquele animal que por vezes enxotamos de nossas casas, negando-lhes abrigo. Quão ingratos são alguns. Do grego a palavra: cínico, resulta de kynós ou cão, o que nos dá em relevo, a linhagem ancestral de alguns seres humanos. Em verdade, cínico é aquele que sobreleva as virtudes animais em detrimento das virtudes humanas, o que acarreta um problema de ordem ético. Quem é mais civilizado, o homem daquele cinismo risível, ou o cão com aquela melancolia cabisbaixa? Mui conhecida é aquela máxima de Victor Hugo: “O cão é a virtude que, não podendo fazer-se homem, fez-se animal.” Fazendo-se animal, a virtude canina desobrigou-se de relativo grau de reflexão, prudência e ponderação, alçando-lhe à divertida condição dos que dormem eternamente. Diferentemente dos demais, os cães padecem no limbo da infância eterna, o que lhes indispõem a fase adulta. Os cínicos como os cães, não amadurecem, sobretudo, porque correm atrás dos próprios rabos como se descobrissem assim a razão de toda a vida, o que lhes acomete, conseqüentemente uma existência circular e sem fim. No conto dos Irmãos Grimm, em que Deus propõe aos homens a idade de 30, em que os homens insatisfeitos solicitam ademais os 18 anos do burro, os 12 do cão e os 10 anos do macaco, resultando assim a quantia de 100 anos de vida como o tempo ideal, os primeiros 30 anos são eminentemente humanos, ao passo que os últimos anos, contados do cão em diante, refletem um quê de cômica situação, afinal a queda dos dentes agrava a ridícula condição de um animal que não se apercebe em face dos demais seres da natureza. Existem animais E animais. Uns são abobalhados, cínicos como os cães, repetindo os gestuais de alguns seres humanos. Outros bem mais centrados, calculistas, são felinos como os gatos, aqueles animais que segundo o provérbio oriental, teria sido dado aos homens por clemência divina para permitir-lhes acariciar o leão. Enquanto os cães são bobos e dóceis, os gatos são arrojados. Se a civilidade de alguns homens é a face mais abobalhada do cinismo dos cães, a outra face, silenciosa e recatada é a extensão natural dos gatos. Como a face do rei Janus, bipartida, a civilidade humana é conjugada entre o ricto cínico dos cães e a seriedade impassível dos gatos. Demócrito, que tinha o hábito reprovável de rir involuntariamente como os cães mais cínicos, afirmara certa vez que boa parte das artes aprendidas pelos homens é senão o esforço cuidadoso de imitar os animais. Pelo que me consta, os homens se civilizaram negando dialeticamente os instintos mais espontâneos dos animais, domesticando assim o cão bravio da alma felina de cada um de nós. O gato sobrepujou-se ao cão, sedando os rictos doentios da outra parte de nossa alma, mas quando entregue à sua própria sorte, ao troçar os bons modos dos gatos que nos habitam, os homens despertam os cães da imoralidade, abrindo as porteiras daquele cão engarrafado pelo qual falava Vinícius de Moraes. Ora, por que cães e gatos se detestam a ponto de se digladiarem nos espaços mais desaconselhados? A resposta é simples: os gatos bem como as virtudes, são códigos disciplinares que exigem limites, de modo que para se tornar eminentemente livre o homem precisa silenciar seus latidos. Marcel Mauss, etnólogo francês me dá razão, afinal: “O gato é o único animal que conseguiu domesticar o homem.” Platão em um de seus diálogos, dimensionava uma cultura em função do lugar que os cães ocupavam em sociedade. Quanto mais humano o cão é representado, mais desaconselhável é esta sociedade. Deve ser por isso, por esta razão específica que a glamourização canina avulta-se dia após dia, porquanto cães representem aquele apelo imoralista, aquela lacuna não redimida da alma humana. Platão antecipando a caninização da cultura Ocidental, talvez se horrorizasse com a recente animalização das instituições políticas de nosso país, aquela porção de Terra incompreendida por parte dos medievais, com efeito imaginada como abrigo para silvícolas caninizados de cabeça para baixo. O certo é que os cinocéfalos venceram a curiosidade dos medievais, travestindo-se de homens em pele de cães quando estes se propuseram a cristianizar o recém descoberto Brasil. Posso até estar enganado, reconheço, mas me parece que passados os últimos cinco séculos, o país vive a mais efetiva Alta Idade Média com suas respectivas epidemias. Cães que são hospedeiros de pulgas, à maneira dos ratos, apressam a disseminação de uma peste negra tão sombria quanta àquela do Decamerão de Bocaccio. Alguns homens sensatos, distantes do contágio fulminante de tal moléstia, aconselham diuturnamente como se assim pudessem se fazer ouvir: façamo-nos gatos! Mas o ladrar de nossos cães é mais imperioso, visto que é mais publicizado. Enquanto os mais sensatos em um recato claustral de gatos são menosprezados, a epidemia se alastra e os cães carnavalizam o país. Os cães que fazem gato e sapato de nossa sensatez, cinicamente gracejam daquela paciência felina que dia após dia nos desacostumados de usar. Sendo os melhores amigos dos homens, eles dispõem de foro privilegiado, imunidade parlamentar e outras prerrogativas de endossar qualquer suspensão de juízo, afinal estamos de ponta cabeça...

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão (cassady68@hotmail.com)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O incômodo elefante.



“Um elefante incomoda muita gente.”

Domínio público.

Ivan Pessoa*


O homem é o animal mais estranho da natureza. O único que escreve, que mente, usurpa, se vangloria e se ensaboa. Sendo um animal atípico, a sua história não seria diferente. Definitivamente se conclui: a história do animal humano é a história da decadência. Rousseau já sabia disso, é tanto que no ano de 1749 antes de ir ter com Diderot, que estava preso em Vincennes, o filósofo teria lido o anúncio de um concurso promovido pela Academia de Dijon, tendo a seguinte questão como tema: “O progresso das ciências e das artes contribui para corromper ou para aprimorar os costumes?” Tomado de suor, o genebrino responde categoricamente que não. Nascia ali uma reavaliação filosófica sobre a história daquele animal atípico, anos mais tarde, aprimorada por Hegel.
É sob os escombros das grandes civilizações, que a história vai sendo processada e o estado de queda e degenerescência é uma constante, talvez sua maior característica. Nos limites desse impasse, que lhe põe qual animal em face da natureza, o homem tem a necessidade divina de criar leis, normas e sanções, nascendo assim a cultura. A rigor é como se disséssemos: a cultura, bem como a história implica em decadência, com a conseqüente apropriação da natureza, entretanto, é próprio do homem tal mister, dobrando os mistérios do mundo com a razão altaneira. O impasse desdobra-se da seguinte forma: ou o homem violenta a natureza, ou vive implicado qual selvagem com suas forças ocultas. Percebendo-se, outrossim, que o ser humano é movido por um desejo voraz e violento, não obstante seja esta a condição de sua humanidade, faz-se necessário a criação de limites artificiais, que assegurem a convivência entre seus pares.
De suas criações artificiais mais efetivas, a palavra é certamente o que de mais demiúrgico há dentro de cada um de nós, sobretudo, por permitir em um só tempo: a comunicação intersubjetiva, a fixação das leis, e a escritura da história. Não haveria história humana sem a artificialidade das palavras em seu comércio frio séculos afora. Decodificar objetos em conceitos, em uma rede imaginativa que resguarda o sentido das coisas ao redor, é decerto o que distingue o homem dos demais seres da natureza. Tal característica nos permite erguer impérios, destruir civilizações, inscrever tratados teológicos, rabiscar decassílabos, corrigir constituições. Naquilo que há de mais inteligível em cada homem, há proporcionalmente um quê de trágico. À proporção que um império é erguido, uma civilização é destruída, um tratado é inscrito, um decassílabo é rabiscado e uma constituição é corrigida, a cabo de tudo isso, imaginando ter alcançado a Verdade, o homem distancia-se de seus semelhantes reabilitando com qual teatralidade a guerra constante entre os animais na natureza.
Aquilo que lhe faz superar a animalidade das demais espécies é o mesmo que lhe faz, comicamente, reabilitá-la. Para negar o traço atávico de sua animalidade, o homem cria a história, mas como se andasse em círculo, vez ou outra ele atualiza o seu lado mais obscuro. Sócrates teria dado à palavra grega daimon, a conotação deste impasse. Os alemães a enfeixaram na palavra: doppelgänger. Ambas as formas vão para a mesma direção: o homem é um duplo. Como naquela clássica história de Robert Stevenson: O estranho caso do Dr.Jekyll e do Sr. Hide, em que o médico Jekyll é igualmente ele e o monstro Hide, o homem ainda que convencido de seus maiores avanços, esconde nos arroubos de sua racionalidade, uma nódoa de animalidade, levando-lhe por vezes a justificar o fundamentalismo religioso, a guerra e a hecatombe, com argumentos da mais alta estirpe. Tornou-se histórica a declaração do general Israel Putnam durante a Batalha de Bunker Hill em plena Guerra Civil Americana: “Don’t fire ‘til you see the whites of their eyes.” Traduzindo: “não atire até vocês verem o branco dos olhos deles.” E olha que ele lutava a favor da humanidade. Bem mais inusitada é uma das partes do livro Minha luta de Adolf Hitler em que ele se justifica: “Daqui hoje acredito estar agindo de acordo com a vontade do Criador Todo Poderoso: ao defender-me contra os judeus, estou lutando pela obra do Senhor.” Cada vez mais convencido sou, de que o ser humano é um animal de porte médio, com uma racionalidade que lhe aproxima das divindades e um corpo concupiscente que lhe põe rastejante como as cobras. Em função dessa estripulia cósmica, o homem é tão desajeitado quanto um elefante, o maior animal de toda a natureza, e proporcionalmente o mais atrapalhado. Plínio, o Velho no maior bestiário do Ocidente, A história natural, diria: “o animal mais próximo do homem.” Ainda que mui inteligentes, grandes cultores dos astros, os elefantes têm uma disposição gigantesca para a guerra. Talvez seja por isso que tenham se deixado domesticar pelos homens, afinal um complementa os limites do outro. O rei Dario III teria enfrentado Alexandre, o Grande com um exército de 15 elefantes, o que teria causado tanto medo no macedônio, a tal ponto deste providenciar um ritual de sacrifício ao deus do medo, Phobos. Ambos ainda assustam, passados todos esses anos, os homens e os elefantes. O homem é mesmo um animal estranho. Aquela velha fábula indiana é bem mais elucidativa. Conta-se que seis homens cegos vinham caminhando pela estrada, curiosos para conhecer um elefante, animal que estes não tinham na aldeia. Até que um dia puderam conhecer. Com dessemelhante curiosidade se puseram em apalpar o animal. Aquele que segurou as presas teria dito cheio de si: “Já sei, o elefante é como um par de lanças.” Outro ao segurar a tromba, dispararia: “ O elefante é parecido com uma cobra.” O terceiro cego encantado com as orelhas enormes do bicho, diria: “ Todos vocês estão errados, o elefante é algo similar a um leque.” Adiante, o quarto cego bradaria: “ Errados estão todos vocês, o elefante é parecido com um barril.” Contrariando o último, o quinto cego apalpando as patas do animal, retrucaria: “ Que barril nada, o elefante é como o tronco de uma palmeira.” Em definitivo o sexto cego após ter pego o rabo do gigante, assim encerraria a contenda: “ Bobagem! O elefante é como um espanador.” Moral da história: passadas as descobertas, incapazes de um consenso, os seis cegos curiosos por definir um elefante, começaram um discussão que se transformaria em um campo de batalha, levando-lhes à morte. Imponentes em suas respectivas searas, os elefantes e os homens são os animais mais ensimesmados da natureza. Comicamente a ambos, as formigas, bem como as questões mais insignificantes ainda incomodam. Respectivamente.

*Professor contratado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Maranhão.